Enthusiasmo
(Uma breve interrupção da nossa programação normal)
Para hoje, tinha escrito um texto sobre uma “boa prática” de comunicação:
→ Conhecer as pessoas pelo nome, e CHAMÁ-LAS pelo nome delas.
Parece besteira, mas já consegui tantas coisas incríveis
ao chamar as pessoas pelo nome que identificam como seu.
E tenho muitos outros temas incríveis (a minha opinião, é que são INCRÍVEIS mesmo!) que planejo escrever a respeito nessa newsletter, em futuras edições.
Mas vi um vídeo ontem que me impactou e gerou algumas reflexões que queria dividir com vocês, leitores.
Resolvi sair por essa tangente hoje:
falar sobre esse vídeo, e deixar o texto que publicaria hoje para a próxima semana.
O vídeo que gerou essa reflexão: Tryna Be Cool (acoustic-ish), da banda Hi-Lo Jack.
Por que esse vídeo me impactou tão profundamente?
Primeiro, porque é um tipo de música de que eu gosto, misturando estilos diferentes.
Soul com elementos de Rap, Rock e Pop; vocais que são cantados com o coração.
Uma versão “ao vivo” viva, com a câmera se mexendo para lá e para cá.
Instrumentos tocados com precisão e de forma apaixonada.
Quando você vê o vídeo, vê todo mundo se divertindo.
Múltiplas camadas de música e arte.
A energia saindo pela tela!
É algo singular, especial.
→ Enthusiasmado.
Quando eu vejo o vídeo, o que mais me marca é como cada pessoa naquele lugar quer estar lá, e está de coração inteiro.
Entregue à versão da música que está sendo construída ao vivo, na frente dos olhos do espectador.
Você pode ter reparado que usei a palavra entusiasmo com um “h” a mais.
Me explico. A palavra entusiasmo tem origem no grego antigo enthousiasmos.
Ela é formada pela junção de en (dentro) e theos (deus). [1]
→ Seu Significado literal:
“Ter um deus dentro de si” ou “estar possuído por uma divindade”
Na Grécia antiga, estar entusiasmado significava um estado de inspiração sobrenatural, em que uma pessoa era tomada por uma força divina que a impulsionava a realizar feitos extraordinários.
Possessão divina. Que loucura.
Mas, talvez mais “louco”, para mim, foi perceber o quanto o entusiasmo parece raro.
Ao longo da vida, conheci
Muitas pessoas competentes.
Muitas pessoas bem inteligentes.
Muitas pessoas muito disciplinadas.
→ Mas poucas pareciam verdadeiramente entusiasmadas.
E, para ser honesto, durante muito tempo eu não me incluía nessa lista.
Passei anos acreditando que talvez algo estivesse errado comigo.
Eu observava pessoas apaixonadas por suas profissões, hobbies ou áreas de estudo, e me perguntava por que eu parecia não sentir aquilo.
Na faculdade, por exemplo, lembro de olhar para colegas profundamente engajados com temas jurídicos enquanto eu me perguntava silenciosamente: “Como vocês conseguem?”
Eu não conseguia.
Não porque fosse difícil.
Não porque fosse complexo.
Simplesmente porque algo em mim não via sentido.
Por muito tempo interpretei isso como um defeito:
Talvez indisciplinado.
Talvez eu fosse preguiçoso.
Talvez uma dessas pessoas que nunca encontra seu lugar no mundo.
Mas hoje, ao olhar para trás, suspeito de outra coisa.
Talvez eu simplesmente ainda não tivesse encontrado o que me entusiasmasse.
Porque, quando encontrei, reconheci na hora:
Negociação.
Comunicação.
Resolução de Conflitos.
Encontrar caminhos quando nenhum caminho parece existir.
Não precisei me convencer. Nem precisei me forçar.
Simplesmente fez sentido de um jeito que o Direito nunca fez.
Recentemente, participei de um evento na USP e ouvi uma reflexão que me marcou profundamente. O professor e advogado Rafael Alves comentou que
“O Direito nasceu como a Ciência do Convívio Humano.”
Uma ciência para organizar a vida em sociedade, mediar diferenças e permitir que pessoas encontrassem formas de coexistir.
Mas, algo se perdeu no caminho.
Pouco a pouco, as pessoas foram se encastelando dentro do mundo normativo, e se distanciando do mundo humano.
Isso para mim fez muito sentido.
→ Porque eu sentia que muito do que conversávamos na faculdade eram problemas criados pelo universo jurídico para resolver problemas criados pelo universo jurídico.
Penso que talvez uma parte da minha dificuldade com o Direito nunca tenha sido uma rejeição ao fenômeno humano que ele tentava organizar.
Talvez fosse justamente o contrário.
Talvez o que me afastasse fosse a sensação de que, muitas vezes, passávamos mais tempo discutindo as estruturas do que as pessoas que viviam dentro delas. Quando olho para trás, percebo que os temas que sempre me capturaram estavam todos ligados a essa camada mais humana.
Não a norma. Mas o que acontece quando a norma colide com a realidade.
Ou o que acontece quando duas pessoas, duas empresas ou duas comunidades precisam encontrar um caminho para seguir em frente.
Esses temas sempre estiveram lá.
O que não estava lá era a minha capacidade de enxergar para além do padrão.
E talvez seja por isso que esse vídeo tenha me tocado tanto:
Não apenas porque os músicos parecem estar se divertindo.
Mas porque eles parecem estar exatamente onde gostariam de estar.
Não há cinismo. Não há obrigação. Ou a sensação de alguém tentando sobreviver ao próprio dia.
Há apenas pessoas inteiras, entregues ao que estão fazendo.
Entusiasmadas.
E isso me fez pensar em quantas decisões tomamos na vida tentando nos adaptar a contextos que nunca foram feitos para nós.
Quantas vezes confundimos desalinhamento com fracasso?
Quantas vezes interpretamos falta de sentido como falta de capacidade?
Quantas vezes concluímos que há algo de errado conosco quando, na verdade, estamos apenas tentando florescer em um terreno que não nos favorece?
Penso que talvez entusiasmo não seja algo que possa ser construído.
Penso que esteja mais próximo de algo que se encontra.
Ou, mais precisamente, algo que se reconhece.
Algo que estava ali o tempo todo, tentando chamar nossa atenção.
Esperando que finalmente estivéssemos prontos para ouvir.

